“Esse processo trouxe de volta a possibilidade dos indígenas escolherem seu próprio caminho”, diz o escritor Fábio Alkmin

Fotos: Arquivo Pessoal-Fábio Alkmin

O professor Fábio Alkmin (fabiogeo@usp.br), que trabalha na rede de ensino municipal de São Paulo, fez seu mestrado na Universidade de São Paulo, entre 2011 e 2014, e agora, decidiu transformar no livro “Por Uma Geografia da Autonomia”. Ele esteve no México, no Centro de Investigaciones de América Latina y Caribe/UNAM. Ali, Alkmin estudou o processo de autonomia territorial indígena do Expercito Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), em Chiapas, local que também tive a oportunidade de conhecer, ver, ouvir e aprender com os zapatistas. O livro foi publicado pela Editora Humanitas/USP, em parceria com a Fapesp. Toda renda obtida com a venda do livro O dinheiro arrecadado com a venda dos livros será enviado para o Caracol Zapatista de Morelia, em Chiapas, em forma de solidariedade à luta Zapatista. Ele conversou com o Santos Em Off.

Fábio, o que fez despertar um interesse especial por Chiapas e a atuação do EZLN?

Minha formação é na área de Geografia Humana, tendo me especializado em temas envolvendo a América Latina, sobretudo conflitos territoriais envolvendo povos indígenas. Esse é um campo de estudo extremamente vasto, e em minha opinião, urgente. Tudo começou em 2009, quando tive contato com os Mapuche, uma etnia que vem sofrendo uma série de ataques contra seu território, no sul do continente. Essa pesquisa foi me levando a outras, com outros movimentos indígenas, até que decidi entender mais a fundo o processo de autonomia territorial dos zapatistas. Com mais de vinte anos de existência, os territórios autônomos zapatistas consolidam-se como uma das experiências políticas mais complexas do contexto latino-americano contemporâneo, sintetizando de maneira híbrida formas de organização tipicamente ocidentais com práticas, tradições e estruturas produtivas tipicamente indígenas.

A ideia de escrever um livro sobre esse tema surgiu quando?

O livro foi mais uma consequência que um objetivo em si, pois a ideia inicial era desenvolver uma pesquisa de mestrado. Após a defesa do trabalho, na Universidade de São Paulo, a banca avaliadora o indicou para a publicação impressa, visto que o tema ainda é pouco conhecido no Brasil e que os debates envolvendo a autonomia estão ganhando cada vez mais força no cenário internacional. Dessa forma a FAPESP e a USP publicaram o livro, que saiu em julho desse ano.

Quando tempo ficou em Chiapas? Descreva um pouco da vida lá?

Dediquei-me a essa pesquisa por mais de três anos, sendo que meu trabalho de campo no México durou pouco mais de seis meses. Passei quase três meses na cidade do México, onde fiz um estágio de pesquisa na UNAM (Universidad Nacional Autónoma de México) e o restante fiquei em Chiapas, conhecendo diretamente a região e o processo de autonomia zapatista. Chiapas é um estado com forte demografia indígena, cerca de 25 a 35% do total da população, dependendo das fontes. É um estado predominantemente rural, com uma considerável reserva hídrica e áreas de floresta ainda conservadas. Apesar dessa riqueza natural, Chiapas também é o estado mais pobre do México, com mais de três quartos da população vivendo abaixo da linha de pobreza. Também é um estado violento, extremamente militarizado.

Na sua palestra, eu tive a impressão que aquela sociedade aplica o conceito da igualdade de classes na sua plenitude. É isso?

Na verdade eu não quis afirmar isso. Entendo o conceito de classe social a partir da perspectiva do materialismo histórico, isto é, de que as classes são determinadas pelas relações sociais de produção, basicamente os proprietários dos meios de produção e os proprietários unicamente de sua força de trabalho. Ainda que seja culturalmente diversa, a população indígena em Chiapas se encontra majoritariamente na segunda categoria. Assim que não sei se faz tanto sentido ler essa realidade simplesmente a partir da ótica das classes sociais. A questão se complexifica quando trazemos outras questões, como por exemplo o racismo estrutural contra os indígenas no México, que de forma geral são considerados “inferiores” ou “submexicanos” pelos não indígenas. O que os zapatistas buscam, enquanto movimento político, é justamente atacar este racismo estrutural mexicano, devolvendo aos povos indígenas seu lugar como sujeitos sociais autônomos, com capacidade política de decisão. Isso não significa um lugar de privilégio, fique claro, mas de alteridade dentro de um projeto nacional que abarque várias etnias, culturas e modos de vida.

Como funciona o território autônomo e como ele é viável?

É algo complexo. Basicamente é um território em rede, que conecta centenas de comunidades indígenas zapatistas. Por meio de assembleias de base cada comunidade elege lideranças locais, que possuem cargos rotativos. Temas ligados à comunidade são deliberados e decididos por meio dessas assembleias. As comunidades, por sua vez, articulam-se entre si e conformam um segundo nível de governo, maior, de âmbito municipal. Assim, cada município zapatista (no momento existem 27) é formado por várias comunidades. Por fim, certo número de municípios zapatistas se articulam em um nível ainda maior, as “zonas autônomas”, o terceiro e último nível de governo. A zona autônoma possui um governo rotativo chamado “Junta de Bom Governo”, formado por lideranças dos municípios, que possuem a responsabilidade de articular os territórios, proteger comunidades mais debilitadas, gerir projetos produtivos, etc. Se os membros da “Junta de Bom Governo” não cumprirem o que foi deliberado pelas bases, perdem seus cargos. Inclusive possuem um princípio muito interessante sobre isso, chamado “mandar-obedecendo”, isto é, estas lideranças deverão necessariamente obedecer as decisões tiradas nas assembleias. Vale comentar que todos estes cargos políticos não são remunerados em dinheiro, mas sim com trabalho de outros membros da comunidade. Isso é muito interessante, pois tudo é pago com trabalho. Um indígena que se torna professor da comunidade, por exemplo, terá sua roça cultivada por um outro indígena que tem o filho na escola, e assim por diante, de maneira que todos trabalham para todos. A partir dessa articulação os zapatistas criaram sistemas produtivos e de circulação, o que somado ao apoio da sociedade civil mexicana e internacional, viabilizou a criação de instituições autônomas zapatistas de educação, saúde, comunicação, etc.

Esses territórios não devem ser muito apreciados pelo governo mexicano e Forças Armadas do país. Como é essa relação com o EZLN ? Como essas forças convivem?

O governo mexicano oficialmente declarou guerra ao EZLN em 1994, quando insurgiram em armas. Apesar dessa guerra ter diminuído a intensidade, ela ainda não acabou, pois o Estado não cumpriu com sua parte nos Acordos de San Andrés (um acordo entre o governo e o EZLN, que buscava dar fim ao conflito) e portanto não houve um armistício concreto. Em outras palavras, Chiapas continua sendo um estado extremamente militarizado e violento. Soma-se a isso outra estratégia de ataque, indireta, que é o apoio implícito dos militares (e do governo de maneira geral) a algumas organizações chiapanecas armadas, inimigas dos zapatistas. Isso por exemplo ocorreu em Acteal, em 1997, onde 45 indígenas Tzotziles foram brutalmente assassinados. Aí entra uma questão interessante, pois se trata do governo alimentando disputas locais, dividindo a população, colocando indígenas contra indígenas de acordo com seus interesses, qualificando tais episódios de violência comodamente como “conflitos étnicos”. Isso ainda vem ocorrendo em Chiapas.

A grande mídia parece que nunca deu muito atenção a esses territórios e a vida que levam lá dentro. Qual sua opinião sobre isso?

É difícil generalizar, mas arrisco a dizer que a grande mídia, como sabemos formada por grandes empresas, interessam-se basicamente pelo lucro e não pela informação em si. Se a notícia tiver potencial de se tornar um espetáculo que dá dinheiro ou poder político, esta empresa investirá nisso, até a exaustão; depois simplesmente mudará o foco e criará um novo espetáculo. Acontece que informação envolvendo povos indígenas que pegaram em armas para defender seu território (e que nele ainda resistem lutando por mais de vinte anos) não são interessantes para os negócios, portanto não possuem espaço de veiculação.

Como se dão as relações comerciais dentro dos territórios e de dentro pra fora deles?

As relações comerciais existem dentro dos territórios, mas não podemos nos esquecer de que eles cultivam a terra e produzem uma boa parte do que consomem em sua subsistência, o que faz com que a circulação de dinheiro seja brutalmente menor do que em nossa sociedade urbanizada. O que eles não produzem eles compram em pequenos comércios próximos ou, o que é algo muito interessante, em bodegas administradas pelos próprios zapatistas, que por comprarem no atacado e venderem a preço de custo, são muito mais econômicos. O dinheiro com que compram estas coisas é gerado a partir da venda de produtos cultivados pelas famílias ou no âmbito das cooperativas de produção zapatistas. Alguns produtos, como o café, possuem uma rede solidária de circulação, sendo vendidos em grandes cidades do México ou até em outros países, o que gera uma renda mais justa, por assim dizer.

Todas as pessoas têm um mesmo nível social, ou seja, são iguais dentro dessas sociedades?

Não diria que são “iguais”, pois a diversidade entre os indígenas de Chiapas é muito grande, não só economicamente falando, mas também no aspecto cultural. Devemos lembrar que eles não estão isolados, estão conectados com o resto do mundo, e por isso não há uma unidade estritamente falando. Por exemplo: há comunidades em que metade dos indígenas é zapatista e a outra metade se alinha com o governo. Há comunidades em que convivem católicos alinhados à teoria da libertação com evangélicos fervorosos. Há comunidades em que indígenas migram para os Estados Unidos buscando uma vida melhor. Tudo isso é real e faz parte da diversidade de um conjunto de comunidades indígenas. Embora seja verdade que haja uma forte coesão política entre os zapatistas, nem sempre isso ocorre no âmbito comunitário, pois ninguém é forçado a ser tornar zapatista. Estas polaridades entre zapastistas e não zapatistas podem se manifestar pela simples indiferença, ou desbordar em conflitos intracomunitários. Mas os zapatistas já aprenderam que eles próprios devem tentar resolver os problemas de sua comunidade, assim, tais divergências geralmente tentam ser solucionadas por acordos políticos. Em um plano mais regional, os zapatistas criaram mecanismos de regulação para seus territórios, favorecendo uma circulação mais justa de recursos e a articulação das comunidades, onde as mais “sólidas” buscam o fortalecimento das mais debilitadas ou desfavorecidas.

Você acha que esse é o verdadeiro Comunismo e o que deu certo?

Não arriscaria dizer isso, pois a ideia de “verdadeiro” não me cai bem, além de que o comunismo é um conceito extremamente complexo. Na minha opinião a autonomia zapatista é um processo de resistência, isto é, um horizonte a que se quer chegar e que por isso te faz caminhar. Ela não é perfeita e nunca chegará ao fim, ela sempre é um processo, sempre é movimento, sempre é plural. Apesar de seus limites estruturais, esse processo trouxe de volta a possibilidade dos indígenas escolherem seu próprio caminho, isto é, de mostrarem ao governo que não são “submexicanos”, que não são inferiores, que não são agentes passivos, mas que sim são sujeitos de direito que querem e podem decidir sobre seu futuro. Essa consciência resgatou a dignidade em se assumir indígena no México, um país que como o Brasil é extremamente racista. Diversos grupos indígenas reafirmaram sua identidade nos últimos vinte anos, cultivando seus idiomas e modos de vida, não obstante a pesada carga de preconceito que isso pode significar. Além dessa conscientização, diria por último que o movimento zapatista conseguiu frear os processos de despossessão territorial que os indígenas vinham sofrendo em Chiapas, a partir da guinada neoliberal do México, no final dos anos 1980. Isso é importante pois a questão do “território” é fundamental para entendermos os conflitos envolvendo os povos indígenas hoje em dia. Os ataques aos territórios indígenas estão aumentando, e escrevam isso, aumentarão ainda mais nos próximos anos. Só uma forte mobilização política poderá frear este processo.

Acha que seria viável a criação desses territórios para os povos indígenas no Brasil?

Os próprios zapatistas afirmam que a experiência que desenvolvem em Chiapas é única e não pode ser utilizada como modelo para outros grupos indígenas. Na minha opinião isso é totalmente coerente com o princípio da autonomia, que busca justamente construir projetos de “baixo para cima”, e não ao contrário, isto é, impor modelos de “cima para baixo”. Isso não significa, no entanto, que esta experiência não possa servir como um espelho, em que cada grupo possa enxergar o reflexo de suas próprias experiências históricas, com todos os erros e acertos aí presentes. Nesse sentido, na minha opinião, é justamente isso o que os zapatistas nos ensinam, o de que a construção de processos horizontais e anticapitalistas devem se dar agora, no cotidiano, a partir das próprias particularidades históricas, forças e debilidades de cada grupo social.

A conferir.

Rosilma Roldan é coautora do livro ‘Heróis, Nem Todos Usam Capas’

A advogada e educadora Rosilma Roldan é uma das coautoras do livro ‘Heróis, Nem Todos Usam Capas’ que será lançado neste sábado, dia 2, às 17 horas, no Palácio das Artes, em Praia Grande.

O livro foi uma ideia do escritor Joel Moraes que convidou 72 pessoas para participar da publicação com ele e todas elas toparam.

O texto de Rosilma fala dos bons heróis que deixam sempre bons legados. Ela compartilha suas melhores conquistas e como é transformar pela ação e não pela reclamação.

O Palácio das Artes fica na Avenida Presidente Costa e Silva, em Praia Grande.

A conferir.

“Lançar um livro sobre política é se expor”, diz Rogério Godinho

Rogério Godinho é escritor e jornalista. Trabalhou na Gazeta Mercantil, B2B Magazine e Forbes Brasil, além de colaborar para o jornal Valor Econômico e as revistas Istoé Dinheiro e Você S.A. É autor das biografias Tente Outra Vez – O Caminho de Nathalia Blagevitch em uma Sociedade Deficiente, Nunca na solidão – Ética, sustentabilidade e o surgimento da nova política e O Filho da Crise, publicada pela Matrix Editora. Ministra cursos e palestras sobre ética, política e comunicação para o mercado corporativo. Estudou história global e globalização, em Harvard, e frequentou o Massachusetts Institute of Technology (MIT) como aluno visitante de Filosofia. Seu recente trabalho é o livro “Para sonhar com política”. Ele conversou com o blog sobre o processo de criação e o momento do País.

 

Rogério, como é lançar um livro sobre política num ambiente cada vez mais radical e com leitura e opiniões cada vez mais superficiais?

Um risco. Hoje, falar de política é entrar em conflito, principalmente porque há uma intolerância enorme para com o diferente. Em vez de negociar e ceder, o comportamento padrão é impor e se fechar. No que se refere ao conteúdo, cada vez mais aumenta o consumo de memes, a conclusão apressada com base em um título e avaliação com base no que pensa o grupo e não o indivíduo. Lançar um livro sobre política é se expor.

Como surgiu a ideia deste livro?

Meu terceiro livro “Nunca na solidão” já tratava de política. Depois dele, passei a ministrar palestras pelo País, onde eu abordava temas como ética, horizontalidade, estrutura partidária e conceitos filosóficos correlatos.
A cada palestra, o conteúdo crescia e eu resolvi trabalhar em um segundo livro. Só que, em vez de um personagem central, oito que desenhassem um panorama mais amplo. Como o outro, este livro utiliza a narrativa como uma forma de transmitir conceitos. É uma maneira de estudar história, filosofia e ciência política quase sem perceber. Procurei não repetir o primeiro, então é possível dizer que os dois livros se complementam.

Qual foi o critério para escolha dos personagens?

Eu não estava buscando modelos, mas perfis que mostrassem diferentes aspectos da política. Temos desde uma figura nacionalmente famosa como Marina Silva até Wesley Silvestre, um líder comunitário da periferia de São Paulo. Desde um político de carreira como Xico Graziano até um um empreendedor social como Ricardo Young. De um personagem histórico como Oded Grajew até um jovem como Zé Gustavo. Além do contraste, os personagens também se distribuem no tempo. Oded Grajew abre o livro e um novo período da política, quando tem a ideia de criar o Fórum Social Mundial. Depois, Mauricio Brusadin sofre ao enfrentar a estrutura partidária, quando eu aproveito para transmitir algumas teorias, como a Lei de Ferro da Oligarquia. Adiante, Ricardo Young faz um experimento interessante na Câmara dos Vereadores, tentando articular uma ponte entre grupos de interesse diversos. É quando eu busco dissecar alguns mecanismos cognitivos por trás do nosso comportamento na política.

Dá pra dizer que, hoje, Cristovão Buarque e Marina Silva representam um pensamento mais à esquerda, ou você não teve essa preocupação de mesclar pensamentos muito distintos?

É difícil negar que há uma forte vertente progressista no livro. E todos os personagens, em diferentes graus, querem se aproximar disso. Desde um que se declara social-democrata até outros firmemente posicionados como esquerda. Mas o fato é que hoje é cada vez mais difícil se colocar somente dentro de duas caixas. Tanto que não temos hoje dois grupos politicamente consolidados. Ao contrário, temos uma infinidade de forças com uma dificuldade gigantesca para conversar. Então eu sempre procurei trabalhar a política em cima de ideias e não de pessoas. Mas por que afinal fazer um livro destacando personagens? Porque uma de nossas principais dificuldades hoje é olhar além da personalização. Quando considerei isso, eu até pensei em abandonar o personagem real, mas me senti como se fosse fugir do problema. Por isso, resolvi eleger personagens, sabendo que meu leitor ia detestar um ou mais entre eles. O desafio é esse: ser capaz de olhar um personagem e racionalizar, não se deixar refém das paixões. Não fechar em uma caixa de esquerda ou direita, mas identificar o que é positivo e o que não é. E isso vale para tudo. É pegar um grupo ou um projeto de lei e não se afastar porque não gostou de uma pessoa ou de um ponto específico. É ser capaz de articular um diálogo.

Você se surpreendeu com algum dos autores especificamente?

São vários capítulos de cada um deles. É justo dizer que me surpreendi com todos várias vezes, a medida que destrinchava a história. Mas, dentre todos, sempre fico feliz de ter convidado o Wesley Silvestre, criador do movimento de defesa do Parque dos Búfalos na Zona Sul de São Paulo. Todos fazem política e são muito relevantes, mas a dele é essencial.

Como falar de política num momento tão ruim do País, sem ser completamente pessimista com o futuro?

Precisamos acreditar. Por quê? Porque estamos vivos.

A conferir.

Jornalista Danilo Bueno lança “O Céu de Baco – Uma viagem aos prazeres do vinho”

Danilo Bueno é sommelier, escritor e jornalista e chef de cozinha internacional, especializado nas cozinhas francesa, italiana e mediterrânea e, por essa razão, um grande aplicador e admirador da enogastronomia. A dieta do Mediterrâneo, como ficou conhecida, é admirada por todo o Globo por ter quatro ingredientes fundamentais: o alho, o tomate, o manjericão (basílico) e o Vinho. Consultor para restaurantes e afins, palestrante e consultor em marketing digital, é editor do Portal Notícia Capital e um verdadeiro apaixonado pelo vinho. Ele lançou o livro O Céu de Baco – Uma viagem aos prazeres do vinho -(http://www.editorabarauna.com.br/culinaria/o-ceu- de-baco- uma-
viagem-aos- prazeres-do- vinho.html). O Blog Santos Em Off conversou com ele. Confira:

Danilo, como surgiu a ideia de escrever um livro sobre vinho?

Quando iniciei-me nos estudos do vinho, percorri por milhares de páginas técnicas que detalhavam as características botânicas do fruto, a escolha das variedades, a determinação do solo, os processos de vinificação, armazenagem, engarrafamento até chegar à mesa do consumidor. O que estes livros tinham em comum é que eram feitos para engenheiros agrônomos ou entendedores da degustação (connoisseurs). Um leigo e sobretudo uma pessoa que não teve oportunidade de avançar nos anos de estudos da universidade teria dificuldade em compreender o “tecnicês”. A partir desta observação e com o princípio de levar o conhecimento do vinho para mais pessoas, ajudando-as a se capacitarem como sommeliers (degustadores), dediquei-me à “tradução” deste conhecimento em uma linguagem acessível e simplificada. Foi um projeto de um ano e meio, feito com muito cuidado para não ser prolixo e sobretudo não ser um “enochato”, algo muito comum na literatura enológica.

Como foi seus primeiros contatos e como se apaixonou pelos vinhos e pelo assunto?

Durante a realização do curso de gastronomia na Universidade Anhembi, tive um contato mais aproximado com o universo do vinho, vindo a conhecer ainda com alguma superficialidade o quão complexa é esta bebida e fiquei fascinado por encontrar tanta informação e cultura em uma taça. A partir desta iniciação, decidi aprofundar-me nos estudos autônomos da bebida. Li muitos livros, comprei muitos vinhos, participei de feiras importantes e congressos e fui enriquecendo esta bagagem de conhecimento. À medida que uma nova taça era preenchida, mais aumentava a minha paixão por esta bebida milenar. Estudar o vinho vai além de conhecer as variedades de uvas viníferas e suas técnicas de degustação, é uma viagem cultural. Conhecer sobre as regiões produtoras, os impactos do clima e do solo na composição da uva, as histórias ancestrais que norteiam as famílias produtoras, a evolução tecnológica do “Novo Mundo”, enfim, há muita riqueza informativa que fascina quem estuda sobre o tema e degustar, é parte deste estudo. Só se aprende sobre o vinho, bebendo-o.

Já houve uma evolução no número de consumidores de vinho no Brasil. Você acha que existe ainda muito espaço para crescer?

Sem dúvida alguma! O brasileiro é um povo que ainda não conhece o vinho. Há basicamente dois tipos de vinho: o vinho de mesa (que eu chamo de vinho vulgar) e o vinho fino. O vinho de mesa é feito de uvas apropriadas para serem comidas e não transformadas em vinho pois, são cheias de “defeitos” por não terem as características necessárias para a vinificação como: espessura muito fina da pele (fulholha), semente demasiado grande, que libera toxina durante a vinificação alcoólica, muita água nos bagos, o que dilui o açúcar e outras características mais. Isso faz um vinho ruim entretanto, a maior quantidade de vinho vendido no Brasil é justamente deste vinho vulgar. O vinho fino, por outro lado, é produzido a partir de uvas viníferas, ou seja, com propriedades adequadas para serem transformadas em vinho. Sua espessura de fulholha é mais grossa, a semente é menor, a quantidade de água presente no bago é pouca, mantendo o açúcar natural. É um vinho que passa por dois tipos distintos de fermentação (alcoólica e malolática), não recebe adição artificial de açúcar e cada uva transfere uma característica sensorial única, que faz com que aquele que degusta o vinho, fique apaixonado pela experiência. Isso sem dizer que o vinho fino é uma bebida que faz bem! Ajuda a prevenir o Alzheimer, o AVC/AVE, promove o rejuvenescimento celular, faz bem para a pele interrompendo o envelhecimento precoce, não engorda e é uma bebida espirituosa! Quando conversamos com um apreciador de cerveja, por exemplo, e mostramos todas estas características e benefícios, despertamos a curiosidade que, com um pouco de orientação, converte-se alguém que tinha alguma resistência em um novo discípulo da cultura enológica, transforma-se em um enófilo!

Você acha que o clima tropical é um empecilho para a popularização do vinho no Brasil?

De forma alguma. O Brasil é um país privilegiado em termos de clima para quem deseja degustar bons vinhos. Os vinhos tintos, de maior consumo, tem seu auge atingido durante o inverno; os vinhos brancos, rosês e as espumantes, são ideais para serem consumidos durante os períodos de calor. Até por isso os brancos, rosês e espumantes são chamados de vinhos festivos! Tudo é uma questão de tomar o vinho certo na ocasião certa.

O vinho precisa ser amargo para ser bom ou isso é lenda?

Não, imagina. O que as pessoas chamam de vinho amargo, são os vinhos de mesa seco. Estes vinhos (vulgares) por não serem próprios para a vinificação, necessitam de adição artificial de açúcar para deixá-lo doce e palatável, escondendo os seus defeitos. O vinho fino, pelo contrário, reúne apenas os açúcares naturais, encontrados na própria fruta como: glicose, sacarose e frutose. Não se adiciona açúcar de cana na sua fermentação – como acontece no vinho de mesa – e por isso, o vinho adquire sabores como: chocolate, amêndoas, cereja, morango, framboesa etc… cada tipo de uva contribui para o surgimento natural destas características, que são acentuadas quando ele descansa em tonéis de carvalho francês ou americano. Aqui também tem a contribuição do tipo de madeira que acentua uma característica ou outra. E nenhum vinho fino é amargo!

Fale um pouco sobre a origem do vinho?

O vinho foi descoberto por acaso, assim como grandes avanços da humanidade (exemplo, a penicilina). É uma bebida que surgiu cerca de 3.000 anos antes de Cristo. Naquela ocasião, as uvas eram pisadas e seu processo de fermentação dava-se em ânforas de cerâmica, o que certamente conferia-lhe um sabor mais terroso. No Egito antigo, o faraó tinha seu vinhateiro oficial e quando morria o monarca, em sua tumba também eram colocadas várias ânforas de seu vinho favorito, para que ele pudesse desfrutar de seu prazer durante a outra vida. O vinho também tem conotação ritualístico-religiosa em algumas religiões como nas judaica e cristã. Durante os anos que a Europa foi devastada pela “peste negra”, era aconselhado às pessoas beberem vinho como remédio. Pois, como toda água estava contaminada, o vinho além de matar a sede, por ser um alimento funcional também nutria as pessoas e davam-lhe força para enfrentar aqueles dias. Napoleão Bonaparte dizia: “pode faltar comida para meus soldados mas, o vinho, jamais!” Isso porque o vinho era tido como um desenvolvedor da coragem, da determinação. Hoje, o vinho não é feito com o pisoteio, nem ânforas são utilizadas. Todo processo é automatizado, no Brasil, por exemplo, a vinificação dá-se em tonéis de aço inoxidável, com temperatura controlada e em ambiente tecnologicamente controlado, conferindo qualidade superior!

O vinho brasileiro já faz frente aos melhores do mundo ou ainda temos muito a melhorar?

Sem dúvida, há muito o que ser feito neste sentido pois, o Brasil é um país jovem se comparado com o “Velho Mundo”. Entretanto, temos algumas vinícolas que estão entre as “top 5” do mundo e posso citar duas delas, uma é a Lídio Carraro, fabricante de vinhos tintos finos; a outra é a Cave Geisse, que produz espumantes de qualidade ímpar! Em comum, ambas estão localizadas no Estado do Rio Grande do Sul.

Existe alguma comprovação que o vinho é afrodisíaco?

Com toda certeza. O efeito afrodisíaco está comprovado. O vinho tem propriedades vasodilatadoras, que são conferidas pelo resveratrol e outros componentes polifenólicos que agem diretamente nas paredes dos vasos sanguíneos. O aumento do calibre dos vasos, faz com que mais sangue circule pelo corpo ao passo que libera a endorfina e serotonina (hormônios ligados ao prazer). Toda esta química que está concentrada naturalmente dentro do vinho, agem diretamente no corpo de quem degusta mas, estas propriedades estão concentradas em maior quantidade nos vinhos tintos finos e secos.

Qual sua dica para quem quer entrar no mundo dos adoradores de vinho?

A degustação de vinho dá-se pelo consumo da cultura, ou seja, é necessária muita leitura e muita degustação. Um vinho, por sua etiqueta, não deve ser degustado sozinho, é sempre muito bem-vindo que ao menos mais uma pessoa desfrute do momento contigo e nestas ocasiões, compartilham-se as experiências de ambos. Podemos dizer que é um aprendizado em dupla ou em coletivo. As experiências olfativas e palatares variam de acordo com cada pessoa e sua memória gustativa. Então, recomendo também uma visita à feira e a prática de consumo de frutos in natura, de cheirar os alimentos antes de consumi-los e estudar muito… uma taça de aprendizado não basta!

A conferir.

 

 

 

“O País é hoje governado por uma quadrilha organizada”, diz Renato Rovai

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Renato Rovai é jornalista, mestre em Comunicação pela USP, doutorando na Universidade Federal do ABC, editor da Revista Fórum e blogueiro.Recentemente, lançou o livro ” Golpe 16 “. O santista conversou com o Blog Santos em Off.

Rovai, como avaliar o impeachment da presidente Dilma?

Foi um golpe civil, coordenado pela Globo e organizado a partir de um processo jurídico-parlamentar. Um golpe que só pode ser praticado num momento de exceção democrática. Um golpe que se beneficiou de uma crise econômica para fabricar uma instabilidade política sem precedentes na história.

Como vê a situação do País depois da saída da Dilma?

O país é hoje governado por uma quadrilha organizada e vive um dos seus piores momentos históricos. Essa quadrilha sempre teve algum poder desde a democratização, mesmo nos governos FHC, Lula e Dilma, mas agora eles estão no cento do poder. O desemprego ainda vai aumentar muito e não vai haver crescimento no próximo período. A inflação só cai porque o consumo diminuiu. E enquanto se agrava o quadro social, se opera a maior entrega do patrimônio público sem que haja qualquer debate. Sendo que o governo atual não foi eleito para isso e por isso não tem legitimidade para tomar essas decisões.

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Como se comportou e como vem se comportando a grande mídia nas investigações da lava-Jato?

A cobertura da mídia no Brasil é seletiva e de alguma maneira criminosa. Para quem ainda tem alguma dúvida disso, basta ver como foi o tratamento midiático da prisão do helicóptero com 500 quilos de coca, cujo proprietário é um senador aliado de Aécio Neves e compará-la com a da compra de dois pedalinhos por dona Marisa. Seria interessante fazer um estudo comparado dessas duas coberturas. Ele daria uma boa resposta sobre o que é a mídia brasileira.

Dá pra ser otimista em algum momento com o futuro do Brasil?

Eu não consigo ver o futuro com otimismo. Acho que entramos num túnel escuro de onde não vamos sair tão cedo.

Como avalia o tratamento que a mídia está dando para o Eike Batista?

Eike era o rei da mídia até outro dia, agora virou o grande vilão. Quem coordena essas banditizações é a Globo, o império dos Marinhos que está envolvido em centenas de casos de corrupção, mas que decide quem é bandido ou mocinho no Brasil.

Bandido bom é o bandido rico?

Acho que devemos parar de criminalizar tudo e todos. É um erro entrar nessa disputa. O país deve ter leis que sejam respeitadas, independentemente de classe social. E devemos pensar em outros formatos de punição para alguns crimes que não podem ser apenas o encarceramento.
Como está sendo recebido seu livro pelo Brasil afora?

Já lancei em várias cidades e muito rapidamente ele foi para a segunda edição, que já está se esgotando. Espero lançá-lo em muitas outras cidades.