Por Wagner de Alcântara Aragão*

Quando se discute uma ligação seca entre Santos e Guarujá fala mais alto a cultura do automóvel. Porque as queixas quanto à travessia de balsas e a luta por uma ponte ou túnel que una as ilhas de São Vicente e Santo Amaro refletem os prejuízos e os anseios de quem usa carro. Não se cogita como solução uma conexão entre os dois lados por um transporte público de massa, eficiente. É o discurso que propõe uma saída que, ao final, revela-se uma arapuca. Está mais do que provado que abrir vias e erguer viadutos e similares não põem fim a problemas de mobilidade urbana. Ao contrário.

Ao estimular o uso do automóvel, o investimento em rodagem gera novos congestionamentos. As filas que temos hoje à espera das balsas só vão mudar de lugar: para as cabines de pedágio que inevitavelmente serão instaladas numa ligação seca.
Portanto, antes de gastarmos bilhões em uma obra rodoviária por onde vão passar automóveis, por que não investirmos bem menos em intervenções que vão beneficiar mais gente, gente que mais precisa? Intervenções, aliás, bem mais sustentáveis ambientalmente.

Por que não investir na ligação hidroviária, modernizando as lanchas de passageiros entre o ferry boat de Santos e o de Guarujá, entre a Alfândega santista e Vicente de Carvalho? Por que não aperfeiçoar o sistema de catraias, criando novas rotas, por exemplo?

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Foto: Wagner de Alcântara Aragão

Que tal implementar uma integração tarifária entre os modais em operação: o cidadão utilizar ônibus-barca-ônibus pagando apenas uma passagem? Já ocorre isso nos transportes urbanos da Grande São Paulo, por meio do “Bom”, o bilhete de ônibus metropolitano, o qual faz integração com os trens urbanos.

Que falta para descer à Serra do Mar e chegar à Baixada Santista? Ou, uma saída mais avançada ainda: uma linha de monotrilho. A ligação seca entre Santos e Guarujá seria
efetivada por um transporte coletivo, de grande capacidade, moderno, confortável, seguro, e bem menos poluente. A via suspensa do monotrilho é, por natureza do modal, elevada, o que facilitaria a travessia do canal do estuário sem prejudicar a entrada e saída de navios do porto.

Há, portanto, opções tanto a curto, como a médio e longo prazos. Basta um pouco mais de ousadia e visão de futuro, enfrentando a cultura do automóvel, e vontade política para tirar ideias da cabeça e projetos do papel.

*Wagner de Alcântara Aragão é jornalista e professor. Mantém um canal de mídia independente, a Rede Macuco (www.redemacuco.com.br). Twitter: @waasantista