Que dor é essa? Afora a solidariedade espontânea e natural, pela dimensão da tragédia e pelas características e repercussão, a sensação é de que morreram amigos, ou grandes amigos ou até parentes próximos.
Além da dor, há a angústia, a sensação de pressão e opressão e, principalmente a emoção. Não há como não chorar!
Quem não chorou nas últimas 48 horas? Seja pela notícia pura e simples, pelas primeiras imagens, pelas viúvas, casadas ou não, pelos filhos órfãos ou pelas homenagens e imagens que uniram o mundo.
Cada uma ao seu estilo, à sua maneira, sem preocupação com a forma ou pompa. E não se limitou ao meio esportivo, as demonstrações de solidariedade vieram dos mais variados setores, como o de uma grande banda americana, Guns N’ Roses, por exemplo, que promoveu um tributo às vítimas.
Vale repetir: que dor é essa?
Que provocou também reações emocionantes de todas as partes do mundo. Gradativamente, a cada atualização de informações, confirmando e fornecendo detalhes da tragédia, a “Chape” foi se transformando no time do planeta terra, como se o futebol tivesse apenas um time e uma cor.
Que dor é essa?
Que levou toda a torcida do Atlético Nacional, da Colômbia, em seu estádio, nessa quarta-feira, dia em que ocorreria a primeira partida da final sul-americana, a gritar insistentemente “Vamos, vamos Chape”, um grito de guerra até então de um adversário, um rival, quase “um inimigo”, que desembarcaria em Medellín justamente para derrotá-lo.
Que dor é essa?
Que levou clubes e mais clubes a oferecerem jogadores, recursos financeiros para os familiares das vítimas, como o PSG, da França, e registrarem imagens alterando sua própria história e identidade. Não foram poucos os que inseriram o escudo ou a cor verde da “Chape” em seus uniformes, sites ou bandeiras.
Que dor é essa?
Que levou o Corinthians e inserir a cor verde na home de seu site, numa homenagem histórica, relegando a um plano secundário, pela primeira vez em sua longa história, a “rivalidade mortal” com o Palmeiras.
Que dor é essa?
Que viabilizou, em pouco mais de 24 horas, uma solenidade fantástica como a que ocorreu no Estádio do Atlético, em Medellín, reunindo também autoridades brasileiras, colombianas, paraguaias e bolivianas.

Não dá para destacar um momento isolado da cerimônia, a cada instante foi uma emoção diferente. Dos hinos ao toque de silêncio, das manifestações dos torcedores aos pronunciamentos das autoridades; do choro comovente do ministro José Serra às reverências aos socorristas que enfrentaram a mata fechada, o frio, a escuridão o medo e salvaram algumas vidas.

Que dor é essa?
Que levou um menino de 7 anos, Richard Ferreira do Nascimento, a se sentar sozinho na arquibancada na Arena Condá, Estádio da Chapecoense, olhando para o nada, numa imagem que correu o mundo.

Ele que, segundo a mãe, Maristela, que teve uma gravidez de risco, nasceu com oito meses e com algumas sequelas. Ele que tem um quadro de epilepsia e faz tratamento com psicólogos e psiquiatras, além de tomar remédios controlados duas vezes ao dia para amenizar os sintomas.
Richard até agora não entendeu bem por que sua mãe o levou para o estádio para prestar uma homenagem e por que não vai ter jogo.
Ele que, inocentemente, perguntou: “Por que? A Chape morreu”?
Não, Richard, a Chape viverá eternamente na mente desse mundo que nos últimos dias, a partir da Colômbia, voltou a saber o que é sentimento de solidariedade.
Que dor é essa?