Carla Testa é influenciadora de negócios, Life Coach, analista comportamental e palestrante. O salto na sua vida profissional aconteceu depois de uma demissão traumática. O que foi um golpe duro virou algo transformador tanto na vida pessoal quanto na profissional. Ela conversou com o Blog Santos Em Off e contou como passou a adotar a palavra “ressignificação” no deu dia a dia.

Como surgiu a ideia de criar a Novum UP?

A Novum Up nasceu em um momento de superação da minha carreira. Nunca tive o sonho de ser empreendedora, tenho 44 anos e desde o 16 sou CLT. Há 18 anos atuo na área da saúde. Nos últimos sete anos, trabalhei em um grande hospital da capital paulistana, sendo os últimos seis anos na área de Educação Corporativa, núcleo de Desenvolvimento Humano. Ali me encontrei. Fazia treinamentos institucionais e comportamentais para todos os funcionários e me declaro apaixonada por isso. Em dezembro de 2017 fui desligada. Meu amor por tudo aquilo era imensurável, quando digo “tudo aquilo” quero dizer, a empresa, especialmente a sua cultura, os amigos, as oportunidades, o meu trabalho, enfim, fui muito feliz!

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Como repensou sua vida?

Viajei para o nordeste e tinha uma semana para decidir se voltaria para o mercado, em busca de novas oportunidades, ou partiria para uma carreira solo. E foi caminhando na praia de Tambaú, 8 quilômetros por dia, conversando com muitos vendedores ambulantes na praia e com minha companheira de caminhada, minha comadre, que percebi outras oportunidades de ser tão feliz como aquelas pessoas, que, mesmo não sendo remunerados adequadamente e não tendo os benefícios que eu tinha, por unanimidade apresentavam em seu rosto um sorriso constante de alegria genuína, simplesmente pelo fato de serem livres e terem a oportunidade de assumirem o controle do seu tempo. Procurei então uma palavra que não tivesse a intenção de eliminar a minha trajetória de vida e carreira até aquele momento, mas ao mesmo tempo me proporcionasse um olhar diferente sobre todas as coisas. Em síntese, eu queria continuar a dançar, mas agora em outro ritmo e com outros pares. Então procurei a palavra que representava o meu desejo, e encontrei a Ressignificação. Esse encontro, entre mim e a palavra, foi tão significativo, que decidi aplicar esse conceito em todas as áreas da minha vida, e como num passe de mágica, passei a ressignificar minha vida familiar, social, espiritual, acadêmica, profissional, enfim, todas as áreas. As primeiras evidências percebidas estavam concentradas na intensidade das dores que eu sentia, com coisas que estavam em meus pensamentos e em meus sentimentos. Elas foram diminuindo e hoje são quase inexistentes. Ao descobrir esse caminho escolhi como propósito de vida deixar a minha melhor versão por todos os lugares por onde eu passar, e contar como se faz isso às pessoas, está no DNA do meu propósito. Eu me tornei uma empresária, em 15 minutos, ao preencher o cadastro de MEI, porém estou aos poucos aprendendo a administrar esse novo desafio. De maneira muito rápida e natural as pessoas e outras empresas foram se aproximando e depositando créditos na aplicabilidade desse conceito. Obtive, e até hoje, posso contar com a ajuda de muitos amigos, de maneira voluntária e com isso estou formando uma grande rede, composta por profissionais muito qualificados e um caráter ímpar. A esses agradeço imensamente!
Dentro de um cenário de desesperança como você atua?

A energia do recomeço é a nossa “pílula”. Aprendi com um grande professor Carlos Piazza, que o caos não deve ser administrado. O que mais se fala hoje é em “fazer a gestão do problema, da crise, do relacionamento…”. Sou da turma do “vamos derrubar tudo e recomeçar essa casa do alicerce, sem esquecer o que essa construção representou ao longo do tempo”. Tudo o que existe no mundo parte do Ser Humano, até as forças da natureza se expressam de maneira inesperada promovendo grandes tragédias, porque o Homem não respeito seus limites. Dessa forma, quando você me fala de “desesperança” não posso aceitar. Sou uma pessoa que, por natureza, sempre estabeleceu com a vida uma sintonia colaborativa. Quando me deparo com o cenário no mercado atual, vejo, profissionais altamente qualificados, repletos de talentos aprimorados, com experiência na aplicabilidade de seus dons e competências, com propriedade em segmentos e suas variáveis, formação acadêmica impecável entre outros atributos, serem dominados por um sentimento de rejeição e incapacidades, muitas vezes motivado por alguém, ou um conjunto de fatores “pequenos” que ao longo do tempo tornam-se “monstros” derrubando essas pessoas incríveis novamente em suas “cavernas”. Não aceito!
Meu papel é descer até essa caverna e metaforicamente me atrever a encorajá-los contando a verdade. Dizendo a eles que as crenças que os assustam são apenas projeções de seres absolutamente iguais a eles, providos de qualidades e defeitos, com a missão de buscarem seus caminhos e cumprirem os propósitos de sua existência. Com isso iniciar um processo de autoconfiança e autodescoberta com um único objetivo: devolver à face dessas pessoas, um sorriso genuíno que outrora estava lá! Assim como os “meus vendedores ambulantes de João Pessoa”.

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Qual é o diferencial do seu trabalho com uma pessoa desempregada?

O desemprego é algo que desestabiliza uma pessoa, especialmente se acomete o sustento de uma família ou a interrupção de projetos em razão da ausência de recursos. Além disso, há dois fatores de grande impacto que fazem parte deste cenário: a sequência de “nãos” e o sentimento de fracasso e impotência que somente o “infinito particular” de cada um pode mensurar. O diferencial do meu trabalho consiste primeiramente em resgatar essa pessoa e mostrar o quão valiosa ela é e que, por merecimento, o seu lugar está guardado, mais uma vez, encorajá-la. Reconheço que essa primeira atitude tem um aspecto aparentemente motivacional, porém não é. Penso que nos momentos mais difíceis de nossas vidas encontrar alguém que lhe estenda as mãos gratuitamente é um diferencial. Após esse momento, de alguma forma ofereço algo a essa pessoa como um gatilho para que ela busque a sua recompensa. Em cinco meses de empresa, tenho evidências incríveis que isso dá certo. Todas as pessoas que entraram na minha rede, de alguma forma foram convidadas a acompanharem frentes administradas pela Novum Up. Atualmente são cinco frentes. Com isso, essas pessoas ganham a oportunidade de fazer networking, apresentar de maneira informal seus talentos e suas habilidades, narrar experiências em grupos que patrocino e consequentemente ter o “primeiro suspiro” após o coma! Ressignificam suas atuações da maneira mais eficaz, doando o seu tempo provido de alguma utilidade para o bem comum. Dinheiro traz sobrevivência e conforto, mas não é fator preponderante de realização.

A autoestima fica no chão quando se está sem um emprego. Uma frase que você diz é que “não é o mercado que não lhe quer é você que não o quer mais”. Dá para explicar isso?

Existe uma expressão muito conhecida que é uma das mais “sabotadoras de vidas” que já conheci. Chama-se “zona de conforto”. Ainda que haja amor naquilo que fazemos em nome da produtividade, não podemos nos acostumar. Caso isso aconteça, perdemos a capacidade de encontrar novos rumos que são vinculados à nossa missão macro de vida e os aprendizados relacionados a ela.  A expressão é apenas uma forma de ativar novas reflexões, como por exemplo: Será que realmente eu entregava com a mesma qualidade e energia da primeira paixão? Será que os resultados gerados por mim eram frutos de uma produção fabril, ou, eu ainda trabalhava entregas de forma artesanal, rara e preciosa? Será a rotina tomou conta do meu tempo produtivo, e eu não percebi? Entre outras reflexões. Em meio a uma crise, quando somos escolhidos para sair, existe uma razão. Qual é? A vida me ensinou que somos responsáveis por tudo o que está a nossa volta. Então essa reflexão pode não responder todas as perguntas, mas certamente vai te fazer parar para pensar como foi e como será o seu comportamento em outras oportunidades.
Você acha que a função “coach” segue um caminho de banalização?

Absolutamente não! A evidência existe visto ao número crescente de profissionais que buscam por essa formação, porém costumo fazer uma comparação simples e desprovida de ironia entre a carreira do Coach e empresas de aplicativos de transporte. Quando você entra em um carro limpo, com um motorista sorridente na medida certa, que percebe se você está apto a conversar ou não, disponibiliza um conforto como (água, bala, revista, carregador), apenas para suprir a sua necessidade, é gentil, assertivo em seus trajetos, respeita as leis de trânsito e te trata com muita educação, essa experiência se torna inesquecível. Contudo, vale lembrar que existem milhões de carros distribuídos pela ruas. A pergunta é: Como você quer atuar em suas iniciativas? Com o Coach não é diferente. Existem inúmeros de profissionais, porém, apenas alguns criam diferencial em suas atuações. Isso depende do quanto voe, aprimore o seu talento, e é relevante a forma como você se disponibiliza para o seu cliente, como você construirá essa relação em que alguém irá se despir para você ajudá-lo a reconstruir parte de vida, com que energia você atuará em cada sessão, respeitando o tempo de entrega de cada um, sendo em sua vida um exemplo de caráter e generosidade para com o outro. Dessa forma posso com tranquilidade concluir que o aprendizado técnico do uso da ferramenta nunca deixará de existir, porém os atributos humanos que farão a diferente em seus atendimentos.

O que é a cultura da ressiginificação?

Ressignificar é dar um novo significado ao que já existe. Um termo proveniente da neurolinguística. A essência da palavra indica a retirada do afeto de algo ou alguma coisa. E foi isso que me fascinou. Neste sentido o afeto não representa uma emoção ou sentimento, mas algo que o tenha afetado. São retiradas da ocasião, por exemplo, angústia, medo, raiva, dor, mágoa entre outros. Por exemplo: uma pessoa se dedica anos ao trabalho e sai como um número, pelo corte natural das ocasiões corporativas. Essa pessoa sentirá frustração, dor, saudade, fracasso, medo de enfrentar novas possibilidades, insegurança, vergonha, desprezo, enfim, tantas outras coisas. Com isso, como podemos propor ressignificação? Promovendo novas reflexões de maneira ordenada para que ela compreenda os reais fatores dessa demissão e não se inclua no “banco dos réus” levando para si toda a culpa do desligamento. É preciso despertar nessa pessoa uma nova forma de encarar o que é o previsto para qualquer trabalhador, sem anular a ocorrência de sua memória, porque é um fato, a demissão aconteceu, mas fazendo com que ela encare essa experiência de outra forma, ela terá um renovo de forças e potenciais para desbravar outros campos. A ressignificação poderá ocorrer em qualquer área de nossas vidas.
O que é preciso mudar na cabeça de quem procura um emprego para que consiga ter sucesso?

É preciso eliminar crenças que o impedem de seguir com coragem e sem medo de julgamento. Esse é um dos desafios mais recorrentes identificado nos processos de coaching. Ao longo da vida recebemos uma série de informações que ficam armazenadas em nosso inconsciente. Essas se manifestam em momento onde nos colocamos em risco, exposição, novos desafios, mudanças, enfim, e trazem com forte impacto a certeza de que não devemos seguir com essa possibilidade. Uma pessoa que busca por novas oportunidades no mercado está provida de uma energia não muito satisfatória para quem precisa demonstrar alta performance. Independentemente do porte da empresa, ela contrata expectativa de sucesso e produtividade na figura de uma pessoa que demonstra ter competência para oferecer esse resultado. “Dessa maneira digo em trocadilhos: Só vendemos aquilo que compramos”. Então eu perguntaria a essa pessoa: O que você tem a me oferecer, que faria por você? É preciso ter autoconfiança para ter sucesso e influência positiva nos meios aos quais frequentamos.
Explique um pouco o seu desejo de aplicar seu trabalho no serviço público?

Infelizmente nosso país não oferece ao cidadão uma saúde pública digna, e também não contempla a necessidade dos trabalhadores. Dessa forma, percebo que muitas pessoas, que atuam no serviço público de saúde, o escolheram para terem segurança e sobreviverem, alem de sustentarem suas famílias, sem o risco de perderem o emprego. Para mim, a vida é tão preciosa, que incomoda ser cúmplice desse cenário, em que pessoas trabalham em situações precárias apenas pela sobrevivência, pelo menos é essa a percepção mais recorrente quando nos deparamos com esses trabalhadores. Penso que eles merecem ser vistos e notados e valorizados pela superação de seu dia a dia. Tenho o desejo de poder ouvi-los, conhecer suas experiências, identificar como eu poderia promover algo que os alegrassem, que os trouxessem a um contexto de suas vidas onde eles substituíssem a sobrevivência por uma vida plenamente feliz, com realizações e propósitos. É simples assim! Não tenho a intenção de ser a “salvadora da pátria”, mas se alguém me falar que ser disponível para esses trabalhadores e simplesmente ouvi-los mudaria tudo, eu certamente levantaria as duas mãos e diria. Eu vou com muito amor!

A conferir.