Nasci na década de 60 e cresci dentro do período da Ditadura Militar. Acho que grande parte da minha geração viveu num vácuo histórico, um período que apenas passou. Meus pais nunca foram envolvidos politicamente. Meu pai foi um operário cearense que chegou a executivo de uma empresa de material elétrico, depois disso passou a trabalhar com vendas. Minha mãe, cearense também, professora de pintura em porcelana.

Lembro que, por volta dos anos 80, ouvi a música do Chico Buarque no rádio. Pela primeira vez, eram cantadas no FM as palavras “merda e bosta”. Fiz questão de mostrar para as senhoras alunas da minha mãe que ficaram escandalizadas com tamanha imoralidade de “Geni e o Zepelim”.

Chegou o período de alistamento militar e o tormento de quem completava 18 anos, ao contrário de hoje, naquela época ninguém queria servir. Sabe por quê? todos nós tínhamos certeza que seria um ano inteiro de humilhações sob a justificativa que isso era necessário para tornar-se um “homem”.

Os problemas começavam no alistamento. Na fila, você era abordado por três ou quatro recos com os argumentos e brincadeiras de mau gosto. Era você contra os repressores num tipo de boas-vindas. Dá para imaginar centenas de jovens sendo humilhados por quatro babacas que se realizavam com esse espetáculo deprimente. Lembro que um idiota ficava dentro de uma sala que tinha umas barras de ferro, um tipo de cela, e ficava chamando um por um para fazer perguntas idiotas para um bando de babacas que se divertia.

Tudo era escracho. No exame médico, mais uma sessão de idiotices comandada por um milico de alta patente. Tudo era mandado com uma recomendação que o último seria penalizado. Tirar o sapato, pegar uma ficha etc. Não existia desculpa. Um deslize e uma sessão de chacota e humilhação.

Minha bronquite serviu para que me livrasse daquilo. Olha, que era na Aeronáutica, pois no Exército ninguém queria se alistar, pois lá a situação era ainda pior.

O lado bom disso tudo é que despertei e comecei a tentar entender algumas coisas.

Mudei de Santos e, no período do cursinho, ao prestar vestibular, lembro do aviso do professor: ” Na redação, o tema é sempre sobre o Brasil. Quem corrige são militares. Não façam críticas, pois além de zerar vocês podem se complicar”. As redações eram um festival de elogios ao sistema e o crescimento incrível daquela País justo e maravilhoso.

Na faculdade, descobrimos a existência de um militar da aeronáutica, que não se enturmava muito, mas que não sabíamos se estava ali para estudar ou o quê. Caso de uma professora que teve uma garrafa quebrada enfiada no ânus numa sessão de tortura foi relatado.

Não tenho e nunca tive filiação partidária. Sindicalista durante três mandados. Fui demitido duas vezes e paguei o preço por defender minha categoria. Tenho grandes amigos no jornalismo, mas não posso dizer isso publicamente, pois eles podem ser punidos pelas empresas que pagam seus salários.

Na segunda vez que fui demitido, fiz uma assembleia no dia seguinte e tive a presença de quatro jornalistas. O diretor regional, ou seja, o presidente ficou sem emprego por impedir a perda de direitos e o ataque à categoria e ganhou o apoio de 4 jornalistas.

O Glauco Braga, jornalista há 26 anos, não pode se esconder em uma imparcialidade hipócrita calcada numa isenção que a a gente sabe que não existe na maioria das empresas jornalísticas. Não apago nem me arrependo do meu passado. Faria tudo de novo.

Fiquei desempregado e meus poucos amigos tentaram me ajudar. Outros colegas gostaram da minha demissão. Sabe o resultado: tudo que falei para eles que aconteceria, aconteceu e continua acontecendo. Tudo pilotado por uma pessoa “atrás de uma mesa com o cu na mão”.

Tenho orgulho de dizer que o Sindicato dos Jornalistas de São Paulo e a CUT nunca me abandonaram na fase difícil. Tive a honra de conhecer a doce Rose Nogueira, que foi uma vítima dos milicos quando tinha acabado de dar à luz e foi torturada de várias maneiras.

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Temo sim pela vitória do fascismo. Tenho medo pelos meus amigos e parentes que vão se tornar alvos fáceis. Já fui chamado de baderneiro, retardado, de ser pobre por ter ligação com o PT e desonesto e ladrão. Isso por parte da minha família. Não respondo e me calo para não aumentar a divisão.

Penso nos casos recentes de jovens em Santos que foram mortos por motivos banais, isso dentro de uma classe média, não de quem mora nas periferias e que não tem sobrenome.

Temo que essa violência para combater a violência vai aumentar ainda o número de gente morta entre ricos, pobres, héteros, gays, mulheres, jovens etc. Enquanto um candidato ao governo diz que se ganhar a Polícia vai atirar para matar ou o aspirante à presidência quer que a Polícia mate e não se responsabilize mais por isso.

Para encerrar, vou lembrar do meu amigo Toninho. Poliglota, estudou em Santos e foi embora para Austrália. Lá fez a vida, casou e teve uma filha. Começou a fazer arte em grãos de arroz. Veio para Santos visitou os amigos, mostrou seu trabalho. Um dia foi para São Paulo, Capital. Entrou em um táxi. Numa movimentada rua, uma viatura da CET mandou o carro parar. O motorista atendeu. Um PM estava no banco de passageiro. Desceu atirando. Toninho levou um tiro na nuca. Morreu na hora. Virou estatística. Acabou com uma família inteira.

Sei de gente que ganha dinheiro ilegalmente; que não trabalha e recebe; que vive de atividades ilícitas e que apoia Bolsonaro. Tudo em nome da “gente do bem” e “contra a corrupção”. Digno de uma tese de doutorado.

Não tenho nenhuma referência boa desses tempos sombrios da ditadura. Acho que as entidades que deveriam zelar pelo Estado Democrático de Direito são omissas e vivem sentadas confortavelmente em suas salas climatizadas. Algumas historicamente apoiaram o golpe militar e continuam do lado do poder. Sou jornalista sindicalizado, me orgulho de ter uma entidade que tem um lado, o democrático. Trabalhador não pode votar no candidato do patrão. É isso.

A conferir.