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Apaixonado pela velocidade, o jornalista santista Douglas Willians lançou o livro “Contos Velozes” . Com um formato leve e linguagem direta, a publicação traz histórias emblemáticas da Fórmula 1. Em uma parceria com o designer Bruno Mantovani, a obra pioneira no Brasil já está nas livrarias.

Douglas conversou com o Blog Santos em Off e falou da criação, da F1 e o que projeta para a temporada que começa neste fim de semana.

Douglas, Piquet ou Senna? Por quê?

Os dois! Nelson e Ayrton foram pilotos diferenciados. Cada qual, à sua maneira, colocou seu estilo nas pistas. Piquet sempre primou pela técnica e pelo estudo da máquina. Era um piloto minucioso, atento a cada detalhe. Senna, por sua vez, exalava velocidade. Arrojado, levava seu carro ao limite. Ambos foram tricampeões com méritos. Escolher um é muito subjetivo. Mas se é para escolher um, vamos lá: Senna. Era visceral. Um artista das pistas.
Como surgiu a ideia do livro?

Essa é uma história interessante. Sou autor de um blog de Fórmula 1, o “Contos da Fórmula 1” (http://contosdaf1.wordpress.com). O blog completará cinco anos de existência neste mês de março. Criado em 2012, ele aborda corridas sob um ponto de vista pouco usual, com o olhar de quem anda atrás do grid. Com o passar dos anos, o blog ganhou seguidores pelo País, sobretudo nas redes sociais. Um deles é o Bruno Mantovani, cartunista dos Pilotoons. Ele é um entusiasta da velocidade. Passamos a interagir pelas redes. Em meados 2016, durante uma conversa, ele abordou sobre a possibilidade de fazermos um livro sobre Fórmula 1. Eu entraria com os textos compilados do blog, e ele, com as ilustrações. Assim nasceu o “Contos Velozes”. Contém 13 textos de diferentes períodos da categoria (para os interessados em comprar, basta clicar no link: (http://produto.mercadolivre.com.br/MLB-830398748-lancamento-livro-contos-velozes-_JM). Casos curiosos, histórias pouco conhecidas e com um ingrediente a mais: voltado para jovens, que pouco têm contato com o esporte a motor. Este que, um dia (mais precisamente nos anos 1980), chegou a dividir as atenções do brasileiro com o futebol.
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Você crê que a Fómula 1 ainda pode voltar a movimentar o País novamente em curto espaço de tempo?

Difícil. Em termos de talento, o automobilismo brasileiro deixa a desejar. O cenário sobre o futuro do Brasil na F1 é sombrio. Veja, se não fosse a aposentadoria do campeão de 2016, Nico Rosberg, não teríamos representantes do País em 2017 (com a retirada do alemão, Valtteri Bottas saiu da Williams e foi para a Mercedes, abrindo caminho para o retorno de Felipe Massa para a categoria). Massa já tem 35 anos, prestes a completar 36. À esteira dele, não vem ninguém. Alguns nomes habitam o noticiário – casos de Pedro Piquet, Pietro Fittipaldi e alguns outros -, mas não vejo algum brasileiro disputando o título da F1 pelos próximos 10 anos (no mínimo). E estou sendo otimista…

Por que perdemos espaço neste esporte?

A inesperada morte de Senna em Imola-1994 impactou uma geração de pilotos. Barrichello assumiu uma responsabilidade que não era dele. Rubens tinha tudo para ser campeão. Porém, teve que replanejar sua trajetória. Massa veio à esteira de Barrichello. Felipe foi pupilo de Schumacher e teve chance real de ser campeão, mas ficou no quase (em 2008, perdeu o título por um ponto). Massa levou uma ‘molada’ de Barrichello em Hungaroring-2009, e nunca mais foi o mesmo. Em suma: Barrichello (mais) e Massa (menos) sofreram com a repentina morte de Senna. Além disso, o Brasil não soube moldar uma nova geração campeã. Disputas na Confederação Brasileira de Automobilismo (CBA) desestimularam categorias nacionais. Como consequência, não há formação de pilotos. E, sem nomes de impacto no automobilismo internacional, as empresas não se interessam em apoiar novos talentos. É um ciclo: sem campeão, não há formação de talento nem apoio da iniciativa privada.

Quem foi o maior piloto que você viu correr?

Glauco, não sei te responder. Posso te responder por características: Senna foi o mais habilidoso, o mais veloz e o mais aguerrido que eu vi. Mas Ayrton tinha pontos vulneráveis. Prost era absurdamente cerebral, talvez o mais técnico da história da F1, mas também tinha falhas. Schumacher talvez tenha sido o piloto que melhor reuniu essas características de Senna e Prost. O alemão não foi heptacampeão mundial por acaso. Mas também atuou numa época onde a tecnologia já imperava. Hoje, gosto de ver Hamilton, Vettel e Alonso em ação. São pilotos que, em alguns momentos, remetem Ayrton, Alain e Michael. Enfim: vejo F1 desde 1986. Vi pilotos formidáveis. Desses, cito três: Prost, Senna e Schumacher. O maior piloto que vi? Não sei.
ContosVelozes

Rubinho é um grande piloto ou um injustiçado?

Rubinho é um grande piloto injustiçado. Glauco, na Europa, Barrichello é reconhecido como um grande talento. Porém, aqui no Brasil, se o cara não é campeão, é tratado como um fracassado. Rubens venceu 11 provas, foi 2 vezes vice-campeão do mundo, é o piloto que mais disputou provas na história da F1 (326 GPs) e há quem conteste. Lá fora, Barrichello é reverenciado e respeitado. Aqui, é debochado. Acho injusto, mas também cabe uma ressalva: Rubens assumiu uma responsabilidade surreal. Ele queria ser Senna. Mas Senna só teve um. Ele paga até hoje por isso.

Por que o caminho pra ser um piloto de F-1 parece que ficou muito mais difícil no Brasil?

Como diria um caipira amigo meu: ‘farta’ apoio, ‘farta’ planejamento, ‘farta’ autódromo. É uma ‘fartura’ impressionante. E, hoje em dia, quem tem apoio, consegue correr na Fórmula 1. Veja o exemplo mais recente de brasileiro na F1. Felipe Nasr disputou duas temporadas com a Sauber (2015 e 2016). Enquanto Felipe contou com o apoio do Banco do Brasil, esteve na equipe. Foi o banco deixar de apoiar Nasr que ele foi defenestrado da escuderia. E olha que Felipe fez um bom papel. Tem mais talento que o sueco Marcus Ericsson (seu companheiro na Sauber nessas temporadas). Mas Ericsson segue na F1. E por que? Porque conta com forte apoio de uma empresa sueca. É isso.

Tem alguém surgindo nas provas menores no Brasil que você enxerga potencial
para surpreender?

Torço para ver Pedro Piquet e Pietro Fittipaldi fazerem bons papeis neste ano. O filho de Nelson Piquet competirá na Fórmula 3 Europeia. Já o neto de Emerson Fittipaldi correrá na Fórmula V8, também na Europa. Porém, o público deve ficar atento a Sergio Sette Câmara, um mineiro que estava no time de desenvolvimento da Red Bull. Em 2017, ele disputará a GP2 – categoria de acesso à F1. Apesar desses três nomes, acho que dificilmente emplacam uma vaga na categoria máxima do automobilismo. Tomara que suas carreiras tenham ótimos gestores – só assim, a F1 virá.

O que projeta para esta temporada? Quem vem mais forte este ano?

Estamos em período de pré-temporada na F1. E, para 2017, o regulamento da F1 mudou. Quem estudou melhor as mudanças da categoria, poderá surpreender. O que temos visto em Montmeló parece ser uma sequência dos três últimos anos. A Mercedes, atual tricampeã, vem forte com Hamilton e Bottas. Mas gosto do desempenho da Ferrari. Vettel e Raikkonen mostram potencial nos testes. E nunca se pode descartar a Red Bull, que cresceu bastante em 2016 e tem Ricciardo e Verstappen (dois grandes talentos da atualidade). Enfim, desses seis pilotos, virá o campeão de 2017. E tomara que Massa consiga desenvolver a Williams, conquistar bons resultados e, quem sabe, até pódios. Dessa forma, Felipe poderá continuar no time de Frank Williams em 2018.