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​O jornalista Paulo Rogério conviveu e presenciou a montagem do time do Santos em 2002. Uma equipe desacreditada que surpreendeu e ganhou o título brasileiro de 2002 e foi vice da Libertadores em 2003, quando foi superada pelo então poderoso Boca Juniors. O profissional que é editor do Jornal Motor de A Tribuna de Santos conta como foi esse momento de  glória do Peixe. O livro 2002 – De meninos a heróis – relata esses bastidores.

 Paulo, dá pra descrever o cenário encontrado no Santos em 2002 e a expectativa da imprensa para aquele time que ia ser montado por Emerson Leão? 

Digamos que você viveu tudo isso junto comigo (Este blogueiro era setorista do Santos à época). O cenário era o pior possível. As contratações feitas entre 2000 e 2001 de nomes de peso como Carlos Germano, Galván, Márcio Santos, Rincón, Valdo, Valdir Bigode, Edmundo e Marcelinho Carioca não só não foram revertidas em conquistas como oneraram ainda mais a folha do clube. Todos foram embora e o Santos ficou sem dinheiro em caixa e com as dívidas na casa dos milhões. A TV nem adiantava mais as cotas. Além disso, o Santos foi eliminado na primeira fase do Torneio Rio-São Paulo ainda em abril e o Campeonato Brasileiro iria começar só em agosto. Até lá, o Santos teria de se manter sem produzir renda.Diante de tudo isso, a diretoria viu-se obrigada a lançar o time formado na base e, ao contratar Emerson Leão, deixar claro que aquele era o time com o qual ele trabalharia. Evidentemente a Imprensa colocava o Santos como carta fora do baralho. Os mais pessimistas falavam em rebaixamento. Os menos pessimistas achavam que o time iria figurar na parte de baixo da classificação e teria mais um ano morno. 

Em algum momento, você acreditava que esse time que viria a ser campeão brasileiro poderia mostrar alguma coisa?

Eu vi Serginho Chulapa marcar o gol do título paulista em 1984 e, com isso, vivenciei os 18 anos de jejum. Quem acompanhou esse período chegou a 2002 com o pensamento de que em algum momento a realidade iria aparecer. Na primeira fase o Santos venceu o Corinthians e jogou muito bem contra o São Paulo, embora tenha sido derrotado. E a classificação em 8º lugar, tendo que pegar o São Paulo, melhor time da primeira fase, decidindo no Morumbi…parecia impossível. Quando o Santos se classificou vencendo no Morumbi, era o Grêmio quem iria eliminar. Quando chegou á final, era o Corinthians. Para quem vinha escolado de derrotas homéricas, em algum momento a decepção iria se mostrar. Só quando Elano empatou a segunda partida da final deu para acreditar que tudo aquilo havia acabado.

 O grande responsável por tudo é o técnico Emerson Leão mesmo?

Com o time pronto, sim. Leão começou a dar treinos e enxergou potencial naqueles atletas. Foi ele quem viu que, se tirasse o melhor de cada um, faria um time que no mínimo iria se destacar na competição. E foi ele quem, depois de pedir contratações ao presidente Marcelo Teixeira, voltou lá e disse que não queria mais ninguém, que iria jogar com aquele time mesmo. Ele deu um susto no Marcelo com isso e mostrou que estava certo.Nessa questão dos méritos não podemos deixar de lado dois dos grandes responsáveis pela montagem do time: os saudosos José Ely de Miranda, o Zito, e Paulo Mayeda, responsáveis pelas categorias de base. Foram eles que prepararam os jogadores e os entregaram prontos a Leão.

 Depois da Era Pelé essa é a melhor safra de jogadores produziu?

Como safra, sim. Porque Neymar é isolado, é craque sozinho. Como time, acredito que a geração de 2002 foi mais encantadora que a de 78, que tinha nomes como Pita, João Paulo e Juary, mas que não jogou sob a pressão dos 18 anos sem conquistas e não enfrentou o descrédito da Imprensa e de muitos torcedores. Então, depois da Era de Ouro, na minha opinião, foi o melhor time, sim.

 Você acha que, apesar de tudo, essa geração ganhou poucos títulos?

Foram poucos, mas importantes. Não veio o Paulista, mas em três anos foram dois títulos brasileiros e um vice, além de uma final de Copa Libertadores da América, competição que o Santos esperou 18 anos para disputar. O time chegou à decisão e só não venceu porque o Boca Juniors estava mais preparado para ser campeão, era um time mais experiente, jogou melhor, ganhou as duas partidas e mereceu a conquista. Mas o feito do Santos nesse período é digno de aplausos.

Como surgiu a ideia do livro?

Em 2009, ao elaborar uma matéria para os jornais A Tribuna e Expresso Popular sobre os 15 anos do tetracampeonato mundial da Seleção Brasileira, idealizei outras datas comemorativas que renderiam matérias. E cheguei a 2012, quando seriam completados 10 anos do título brasileiro. Então vieram as ideias de matérias. Só que essa conquista não cabe em uma matéria. Por todo o contexto, por tantos fatos paralelos, por uma decisão de título histórica, uma página de jornal não teria espaço suficiente. Nem uma série de reportagens, nem um caderno. Para que tudo fosse detalhado, só um livro reuniria. E concluí que, sendo jornalista e tendo acompanhado quase toda a história in loco, estaria habilitado a escrever. Mas não seria apenas relatar os fatos e, sim, colocar as pessoas que construíram a história para falar. Daí a ideia de entrevistar todos os envolvidos nessa conquista.

O que você descobriu quando estava fazendo o livro que lhe surpreendeu?

Em 1999, quando comecei no Jornalismo, convivi com uma geração que estava da metade para o final da carreira e muitos desses jogadores haviam conquistado títulos importantes. Vi tanta frieza, tanta indiferença com o que acontecia em campo que passei a acreditar que nenhum jogador ligava para nada. Se ganhasse ou perdesse, para eles não mudava nada.O que a geração de 2002 me mostrou foi um grupo disposto a vencer, com jogadores que choravam por derrotas ou quando não podiam jogar. Histórias como a do atacante Alberto, que tinha o pai torcedor do Santos e precisava decolar com a carreira, porque já estava com 27 anos. Aquela geração era o que eu imaginava de um jogador e que os primeiros atletas com quem convivi tiraram de mim, ou seja, jogadores envolvidos com o clube e com o futebol, querendo vencer no campo e na vida.

Quem foi o melhor de todos os jogadores na sua opinião no time campeão brasileiro de 2002? Por quê?  

Seria injustiça citar um jogador. cada um teve um papel e por isso as coisas deram certo. Robinho brilhou na decisão, Fábio Costa fechou o gol (e voltava de uma contusão grave), mas quem ganhou aquela partida foi o Robert, que era reserva e entrou no lugar do Diego. O Santos, naquele momento, precisava da experiência do Robert e ele ensinou o time a jogar uma decisão. Então você não tira o Robert dessa galeria. Prefiro atribuir a conquista a todos, cada um de uma maneira