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O jornalista santista Lincoln Spada lançou o livro-reportagem Cracolândia: Território do Abraço,  fruto da parceria entre a Associação de Desenvolvimento Econômico e Social às Famílias (Adesaf) e a editora Imaginário Coletivo. A Adesaf é a ONG gestora, no segmento do trabalho, do De Braços Abertos, programa municipal direcionado à redução de danos com baixa exigência à população em situação de drogadição ou de rua em São Paulo, Capital.O Blog Santos Em Off conversou com o autor sobre como foi o trabalho.

O crack avança a cada dia. Essa questão ainda é tratada mais pelo criminal do que pelo de saúde pública?

Infelizmente, ainda há uma hipocrisia social de legitimarmos certos vícios em detrimento de outros. Na ausência de um amplo debate público, cresce o tráfico, a ilegalidade, e quem é mais marginalizado é o usuário de drogas. Seja nas múltiplas abordagens policiais, seja ao se perder no vício.
Assim, a saúde pública ainda é um tema recente em relação à perspectiva criminal. Não à toa, do que convencionamos desde 1989 chamar de Cracolândia, note que ali, hoje 70% são ex-detentos, e 50% já tinham passado por uma casa de internação.

Na Cracolândia, na Capital, foram feitas algumas ações para enfrentar o problema. O que foi mais eficiente na sua Opinião?

A olho nu, é perceptível que políticas de higienização, repressão e internação compulsória permitiram que, até 2013, a Cracolândia tivesse um fluxo maior de usuários de drogas. Desde a implantação de um programa público como De Braços Abertos, de estimular o protagonismo social e a redução de danos, logo nos primeiros meses de 2014, surge um novo cenário urbano e comunitário naquela região. Ou seja, ações de redução de danos em três anos teve melhor resultado do que as outras duas décadas de intervenções falidas.

O atual prefeito de SP João Doria não parece que vai dar sequência aos programas criadas pelo Fernando Haddad. Como avalia isso?

Avalio que já somos cientes de que a nossa festa da democracia é irmã do estelionato eleitoral, e que nem todas as promessas serão cumpridas. Da velocidade urbana à virada em Interlagos, das privatizações de parques até às avenidas de lazer. E como Doria diz, Haddad é um republicano e, espero que o prefeito se inspire no antecessor ao ser sensato ao tratar às populações em situação de rua e de drogadição.

O que está dando certo e o que está dando errado na Cracolandia na sua Opinião?

Esqueça operações policiais contra usuários de drogas, isso causa desconfiança, dispersa e estimula o maior consumo. Daí, para alguns, a recuperação se dá pela abstinência em casas terapêuticas. Para outros, em diminuir gradualmente o seu contato com a kryptonita. E é desse último cotidiano que seguem os relatos do meu livro.

Qual a história mais emocionante que conheceu?

Eu me esvaziei ao escutar cada testemunho. Há quem reencontrou os filhos, e aquele reencontrou a carreira, um que reencontrou a memória, ao guardar objetos pessoais na nova hospedagem. Mas teve uma jovem expulsa de casa que, ali, empenhou-se até entrar no vestibular. Nossos olhos transbordaram.

Como foi a elaboração do livro? Quantas vezes esteve na Cracolandia?

O livro foi um convite da Adesaf para contextualizar a região, o recorte histórico do crack e as partilhas dos gestores públicos, equipe da ONG e, principalmente, dos beneficiários do De Braços Abertos. Este programa municipal desde 2014 é gerido pela Adesaf no âmbito das oficinas e frentes de trabalho. 
Fui à Cracolândia entre uma a três vezes por semana durante três meses em 2015 e outros dois em 2016. A cada visita, a comunidade me acolhia mais, e são inegáveis os vínculos com quem volta a sonhar. E na verdade, estive muito desiludido de meu futuro neste biênio. Foram eles quem me tocaram de que ainda é possível sonhar.
Afinal, há uma eloquência nos dizeres, um esforço pessoal tremendo para reconquistarem de vez o direito de ter um lar, um emprego, três refeições ao dia. São centenas de pessoas que têm nomes e histórias maiores do que qualquer apelido do bairro onde estão. E tive toda liberdade para expor os pormenores da rotina dessa iniciativa junto aos beneficiários do De Braços Abertos.