José Manoel Ferreira Gonçalves é doutor em Engenharia de Produção pela Universidade Metodista de Piracicaba (UNIMEP), Mestre em Engenharia Mecânica pela Universidade Federal de Itajubá. Engenheiro Civil (Universidade Mackenzie), Jornalista (Fundação Cásper Libero) e Advogado (Universidade Santa Cecília). Pós-graduado em Geoprocessamento (UFRJ), Termofluidomecânica (EFEI), Eng. Oceânica (Coppe-UFRJ) e História da Arte pela Fundação Armando Álvares Penteado FAAP. Conselheiro do Instituto de Engenharia em dois mandatos e do CREA- Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia de São Paulo e autor de quatro livros sobre ferrovias. É um dos principais especialistas em modal ferroviário e ferrovias no País.  A seguir, Gonçalves faz uma avaliação da situação do transporte e das estradas de ferro pelo Brasil.

Qual é a realidade da malha ferroviária do País?

É lamentável a situação a que chegamos. Há 20 anos, com a extinção da Rede Ferroviária Federal e a Fepasa, foram feitas concessões muito mal elaboradas, com contratos péssimos, que facilitaram a prática de monopólio dos trilhos existentes, sem cuidar da qualidade dos serviços muito mal prestados. O resultado foi e continua sendo o fechamento de ramais ferroviários e até mesmo de trechos de troncos ferroviários em todo o País. Hoje temos cerca de 15 mil quilômetros em funcionamento. Dos 4 mil existentes em SP, funcionam neste momento apenas 2 mil. Uma vergonha!

 

Quais são os maiores absurdos que constatou pelas suas viagens pelo País?

A falta de projetos sérios e estruturados, com a identificação das demandas de cargas, a desconexão das malhas existentes entre si e com os portos. O desconsiderado direito de passagem, justo e equilibrado, que leve em conta os interesses do País e não apenas os mesquinhos interesses menores de grupos míopes, ambiciosos e paroquiais. Um exemplo disso: faz três anos que um trecho de mais de 800 km da ferrovia Norte-Sul, entre Anápolis, em Goiás, e Palmas, no Tocantins, continua inoperante. Só de frete isso significa que desperdiçamos mais de R$ 1 bilhão  por ano.

Como anda a questão da renovação antecipada da concessão da malha ferroviária paulista?

A Ferrofrente, com o apoio da Federação Nacional dos Engenheiros Ferroviários, entrou com uma ADI- Ação Direta de Inconstitucionalidade- contra essa absurda renovação antecipada da chamada malha paulista. A forma como isso foi proposto, a incapacidade dos órgãos do governo negociarem, ouvindo as sugestões e críticas de diversos segmento do setor ferroviário, e a inação da ANTT- Agencia Nacional dos Transportes Terrestres- autorizam a percepção geral de que algo nada ético e republicano esteja sendo imposto pelo governo com o conluio das concessionárias, na prática colocando o País como refém de interesses bastante discutíveis.

O País continua investindo no transporte em cima dos caminhões por comodidade ou incompetência ?

Por omissão criminosa não apenas dos políticos e dos diversos governos, mas também é necessário que se diga de forma clara, da nossa sociedade que simplifica, se acovarda e mantem medíocres e hipócritas governantes que insistem em não perceber que o Brasil precisa de projetos ou planos de Estado e não apenas de governos débeis e fracos.

Existem deputados federais engajados na luta pela volta e recuperação das ferrovias do Brasil?

Existem sim. São poucos. Da bancada da Baixada Santista, por exemplo, não se salva nenhum. Estão apenas voltados para seus pequenos interesses eleitorais, com um horizonte super reduzido e nada generosos. Uma pena. Em termos nacionais, merece todo o nosso respeito e admiração parlamentares como o Ronaldo Lessa, presidente de uma importante Frente Parlamentar pela Engenharia Nacional.

Como avalia a matéria do Fantástico sobre a Ferrovia Norte-Sul? Acha que as coisas vão começar a andar ou não podemos esperar nada até a eleição do novo presidente da República e do novo Congresso Nacional?

Esse governo que ai está, capenga, disforme, trôpego e que tomou o poder legítimo de uma presidente eleita, não foi processada por corrupção, como ocorre agora, é absolutamente incapaz, impatriótico, frágil, ilegítimo e suspeito, dele espero apenas a renúncia imediata e a convocação de eleições gerais antecipadas.Quanto a matéria do Fantástico, da TV Globo, sem dúvida foi uma matéria de alerta e denúncia importante. A repórter especial Sônia Bridi e a equipe de produção do programa fizeram um ótimo trabalho, sério e profundo que poderá muito bem inspirar outros veículos a seguir caminho parecido.

Como é e está servida a Baixada Santista de malha ferroviária? Está quase tudo abandonado?

A nossa querida Baixada Santista está muito mal representada no parlamento nacional e também estadual. Já tivemos excelentes parlamentares que defendiam com vigor e coragem os mais significativos interesses do povo da região, coisa que infelizmente ficou no passado. As ferrovias existentes na Baixada também estão sofrendo a falta de uma representação mais capaz e firme.