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Fotos: Reprodução

Dom Tarcísio Scaramussa, de 66 anos, bispo titular da Diocese de Santos, conversou com o Blog Santos em Off e falou um pouco de tudo: do papel da igreja, corrupção, crescimento dos fiéis, outras religiões etc.
Qual a avaliação do senhor sobre a corrupção e o combate a esse tipo de crime? A igreja não poderia ser mais crítica em relação a isso?

A corrupção é como um câncer na sociedade. Aqui no Brasil está tão alastrada, atingindo todo o tecido social, nos vários segmentos e instâncias, que parece configurar uma metástase. Há quem diga até que existe uma cultura da corrupção, porque está se tornando um modo de pensar e de viver. Procura-se levar vantagem em tudo, não se importando se os meios e procedimentos para isso são éticos ou não. O Papa Francisco falou certa vez em uma homilia que “os corruptos matam e a única saída possível é o arrependimento. O corrupto vende-se para fazer o mal, julgando que apenas o faz para ter mais dinheiro”. E concluiu: “Quando lemos nos jornais que esta ou aquela pessoa é corrupta, mesmo até quando são prelados da Igreja, devemos rezar por eles e pedir ao Senhor para que se arrependam e se convertam, “e que não morram com o coração corrupto”. Além das ações mais pessoais dos membros da Igreja, clero e fiéis leigos, a Igreja tem se pronunciado oficialmente, denunciando a corrupção, como na Mensagem da CNBB para as eleições de 2016, que afirmava: “Neste momento, mais uma vez, o Brasil se defronta com uma conjuntura desafiadora. Vêm à tona escândalos de corrupção sem precedentes na história do país. É verdade que escândalos dessa natureza não tiveram início agora; entretanto, o que se revela no quadro atual tem conotações próprias e impacto devastador. São cifras que fogem à compreensão da maioria da população. Empresários, políticos, agentes públicos estão envolvidos num esquema que, além de imoral e criminoso, cobra seu preço. Quem paga pela corrupção? Certamente são os pobres, “os mártires da corrupção” (Papa Francisco). Como pastores, solidarizamo-nos com os sofrimentos do povo. As suspeitas de corrupção devem continuar sendo rigorosamente apuradas. Os acusados sejam julgados pelas instâncias competentes, respeitado o seu direito de defesa; os culpados, punidos e os danos, devidamente reparados, a fim de que sejam garantidas a transparência, a recuperação da credibilidade das instituições e restabelecida a justiça”. É esperançoso ver que a Polícia Federal e a Justiça no Brasil estão realizando uma ação eficiente no combate à corrupção, mas é necessário o apoio e engajamento de toda a sociedade para estas ações sejam eficazes, prendendo os criminosos e desencorajando a prática da corrupção. Além disso, é fundamental formar a consciência ética, a partir da educação na família, na escola, mas também na mídia, criando um consciente coletivo de valores, de respeito às leis e direitos, de responsabilidade e solidariedade.

O senhor acha que a igreja perdeu espaço e se afastou dos pobres e excluídos de uma maneira geral?

Os últimos dados estatísticos relativos à Igreja foram publicados em dezembro de 2016, mas são relativos a 2014. Eles revelam que o número de católicos teve um aumento de 18.355.000 milhões de pessoas, perfazendo um total de 1.272.281.000. Somente no continente europeu houve redução. Os dados sobre a ação social revelam que a Igreja católica tem um compromisso prioritário pelos mais pobres, e talvez seja a instituição que tenha mais ações concretas neste sentido. Transcrevo algumas informações: “A Igreja administra 115.352 Institutos sanitários, de assistência e beneficência em todo o mundo. Deste número, 5.167 hospitais (a maior parte na América, 1.493 e 1.298 na África); 17.322 dispensários, a maioria na África, 5.256, América 5.137 e Ásia 3.760; 648 leprosários distribuídos principalmente na Ásia (322) e África (229); 15.699 casas para idosos, doentes crônicos e deficientes – Europa (8.200) e América (3.815); 10.124 asilos, principalmente na Ásia (3.980) e América (2.418); 11.596 jardins da infância, a maior parte na América (3.661) e Ásia (3.441); 14.744 consultores matrimoniais, distribuídos no continente americano (5.636) e Europa (6.173); 3.663 centros de educação e reeducação social, além de 36.386 instituições de outros tipos” (Cf. Anuário Estatístico da Igreja – Agência Fides). A Igreja no Brasil, além das Instituições e Projetos de Assistência Social, possui uma gama
extensa de ações coordenadas pelas Pastorais Sociais, entre as quais podemos citar a Carcerária, da Criança, do Menor, da Mulher Marginalizada, do Povo de Rua, dos Migrantes, dos Nômades, dos Pescadores, dos Indígenas, a Operária, da Terra, de DST/AIDS, da Saúde, da Mobilidade Urbana, da Pessoa Idosa, do Surdo, da Sobriedade, dos Caminhoneiros. Aqui em nossa Diocese, criamos o “Vicariato para a Dimensão Social da Evangelização”, para dinamizar e articular todas as iniciativas e pastorais neste campo social. Há ainda várias comunidades terapêuticas para recuperação de pessoas com dependência química, e estamos iniciando este ano mais um projeto de uma comunidade terapêutica para mulheres, o que não havia ainda aqui na Baixada Santista. Além disso, em muitos momentos, a Igreja tem também se pronunciado em defesa dos pobres e de leis e políticas públicas que os promovam, e que não os prejudiquem. Concluindo, acho que estes dados indicam que a Igreja não se afastou dos pobres e excluídos.

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3) Como o senhor avalia a aproximação da igreja católica com a política? O senhor incentiva ou não que os religiosos se posicionem politicamente e apoiem candidatos nas eleições?

Por ocasião das últimas eleições (2016), enviei uma circular aos padres, recordando o posicionamento da Igreja com relação à Política. A Igreja participa da Política (com P maiúsculo), no sentido de interessar-se por tudo o que diz respeito ao Bem Comum. Ajuda também na conscientização e formação política dos fiéis, para preparar cristãos que atuem com ética e responsabilidade neste campo, e para orientar o voto consciente nas eleições. A Igreja participa também na política partidária através dos fiéis leigos e leigas, que aí estão engajados como “sal e fermento na massa”, pois este é também um campo importante de missão evangelizadora específica dos leigos. A Igreja Católica Apostólica Romana, como
Instituição, não tem uma opção oficial por partidos ou candidatos. Por isso, os representantes da Igreja (clero) não devem posicionar-se explicitamente na política e em campanhas partidárias (cf. Código de Direito Canônico, 287 §2; 572). Não fazem, portanto, campanha para partidos ou candidatos, os espaços eclesiais não devem ser usados para este fim, e ninguém está autorizado em nome da Igreja a pedir favores ou vantagens em troca de apoio eleitoral por parte do clero ou de comunidades da Igreja. Agindo desta forma, a Igreja conserva sua liberdade para ser uma instância crítica e estará também mais preparada para atuar como mediadora de conflitos, quando necessário.

O senhor não acha que a igreja católica precisava ser mais incisiva em relação aos problemas brasileiros (violência, discriminação racial, de sexo, pobreza, falta de moradias) e ter posições mais fortes e claras?

Se recolhermos todos os pronunciamentos da Igreja Católica, seja em nível nacional e regional, através da CNBB, seja em nível das Dioceses, mas também de pastorais particulares, poderemos constatar que a Igreja tem se posicionado constante e permanentemente sobre as questões mais prementes de nossa realidade. É verdade, porém, que a repercussão do posicionamento da Igreja hoje, especialmente na grande mídia, não é a mesma de alguns tempos atrás. Temos um grande desafio para comprometer e mobilizar os católicos para a difusão desses posicionamentos, mas também para a participação maior na luta pelos direitos e pela democracia.

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Na sua visão, o crescimento de outras religiões deve-se a fragilidade e a falta de visão da igreja católica em determinados temas e, por outro lado, a maior liberdade e aceitação por parte das outras religiões?

Para responder objetivamente a esta pergunta, é necessário realizar pesquisas que expliquem o fenômeno da migração religiosa nos dias atuais. Já existem vários estudos neste sentido, mas ainda insuficientes. As mudanças culturais tem muito a ver com esta realidade. Tem crescido muito uma demanda de “supermercados da fé”, no sentido de as pessoas buscarem na religião as coisas que lhe agradam, de forma seletiva, à semelhança do que se busca num shopping para consumir. Este é um fenômeno típico do homem ocidental, voltado para o consumo e buscando satisfação pessoal e bem-estar. Por outro lado, tem surgido também muitas propostas oportunistas de resposta a estas demandas, com grande proveito financeiro por parte dos que estão explorando este “mercado”. A Igreja Católica não concorre neste mercado, adaptando a doutrina ou a proposta de vida evangélica às conveniências das pessoas, mas procura formar verdadeiros discípulos de Jesus Cristo. Reconhecemos que não conseguimos iniciar bem na vida da fé todos os batizados e, por isso, não conseguimos que todos vivam de acordo com a fé, que vivam a fé como uma resposta que empenha e compromete a vida. Estamos muito empenhados em aprofundar este processo. Acostumados também com um grande número de batizados, desenvolvemos pouco o espírito missionário, ou temos dado pouca atenção e acolhida às pessoas. O Papa Francisco tem insistido para que sejamos sempre mais uma Igreja “em saída”, que vai ao encontro das pessoas e não fique apenas esperando que as pessoas venham a ela, e uma Igreja mais acolhedora.

O senhor fez algumas mudanças nas igrejas de Santos? Já existem resultados dessa sua atitude?

As mudanças são feitas em vista das necessidades da Igreja. Elas têm sido muito bem acolhidas e vistas de forma positiva, de modo geral. Aconteceram há pouco tempo. Espero que proporcionem crescimento para todas as comunidades envolvidas, pois acreditamos que a Igreja não é conduzida apenas por nós, mas principalmente pelo Espírito Santo de Deus.
A transferência do Padre Chiquinho da Igreja São Judas Tadeu para a Pompeia ainda rende críticas à igreja. Por que o senhor não esperou que ele completasse 50 anos na paróquia antes de trocá-lo?

Recebi, na época da comunicação da transferência do Mons. Chiquinho, um abaixo assinado para que fosse adiada a decisão. Recebi também inúmeras manifestações de apoio. O novo pároco foi muito bem acolhido e o ambiente na Paróquia está sereno e tudo funciona normalmente. O Mons. Chiquinho recebeu o título de pároco emérito, para que sua pessoa continue ligada à Paróquia São Judas Tadeu. Certamente será homenageado quando completar 50 anos dessa história de vida. Este não poderia ser um motivo para adiar o que discernimos como necessidade importante da Igreja neste momento, e não só da Paróquia de São Judas, mas também de outras Paróquias.

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O Padre Chiquinho foi rebaixado dentro da hierarquia da igreja, hoje, na Pompeia. O senhor pode revelar quais foram os reais motivos da saída dele do Marapé? O apoio público ao prefeito Paulo Alexandre Barbosa foi um deles? Houve algum problema financeiro na administração da igreja que prejudicou o padre Chiquinho?

Não costumamos utilizar os conceitos de promoção e rebaixamento nos ministérios da Igreja. Todo ministério ou encargo é visto como serviço, e todos procuramos servir à Igreja, para além dos interesses de promoção pessoal. Rebaixamento de ministério seria a pessoa ficar impedida de exercê-lo. O Monsenhor Chiquinho continua exercendo seu ministério presbiteral, e isto é o maior dom, dignidade e alegria na vida de um sacerdote. Foi muito bem acolhido na nova Paróquia, e as pessoas desta comunidade também estão felizes por poder contar com sua presença e ministério. Ao completar 75 anos, todos os padres são convidados a apresentarem sua renúncia ao ofício (Cânon 538 § 3 do Código de Direito Canônico). Com seus 85 anos, o Mons. Chiquinho há tempo merecia maior tranquilidade e alívio de preocupações administrativas e funcionais. Imaginar que uma decisão dessas se deveu a questões políticas não tem sentido. Foram muitas mudanças que aconteceram, e todas decorrentes das necessidades pastorais da Igreja, não só devido a problemas pontuais.

Como observa o papado atual, que claramente enfrenta resistências da ala mais conservadora da igreja mundial, principalmente envolvendo temas polêmicos como a pedofilia?

O Papa Francisco tem sido muito aceito e respeitado dentro e fora da Igreja. É verdade que há também forças de oposição e resistência, como acontecia também com outros papas e que é comum em qualquer instituição. Ele prega o diálogo e tem procurado realizar as necessárias reformas com coragem e persistência, mas procurando a adesão de todos, a começar da Cúria Romana. Com relação a esta questão específica, foi levantada uma crítica feita pela Sra. Marie Collins, que abandonou a comissão antipedofilia criada pelo papa Francisco, alegando falta de cooperação dentro do Vaticano, especialmente por parte da Congregação para a Doutrina da Fé dirigida por Müller. Em resposta à denúncia, o cardeal alemão Gerhard Ludwig Müller questionou o que poderíamos chamar de “teoria da conspiração”, afirmando: “Acho que é preciso acabar com esse clichê, a ideia de que, de um lado, está o Papa, que quer reformas, e, do outro, um grupo de resistentes que querem bloqueá-las”; Em conclusão, creio que o Papa Francisco está encontrando mais apoio e adesão que resistência e oposição na Igreja e que nem sempre algum questionamento, quando não se trata de questões de doutrina, mas de procedimentos pastorais ou administrativos, deve ser visto como oposição, pois podem ser também formas de aprofundar o debate em torno destas questões.

O senhor já pensa no sucessor de Marcos Medina na reitoria da UniSantos, já que ele não pode ser mais reeleito?

Antes de pensar em nomes, é preciso traçar o perfil da pessoa que responda melhor à realidade da Universidade no contexto atual. Trata-se de um processo de discernimento, para o qual espero contar com a contribuição de muitas pessoas. A prioridade no momento é a reforma do Estatuto, para que esteja atualizado com relação às novas legislações e às novas situações da Instituição.